Todo escritor de ficção já ouviu essa comparação ou mesmo já se imaginou como um deus criando um universo: a sua obra.
Eu percebi que, nessa metáfora, eu sou um deus sem onisciência, porque me dei conta de que não conheço meus personagens. A intimidade máxima que eu tenho com um personagem meu é com o protagonista do romance em andamento. Um poeta vitimista insuportável (porque será que o conheço tão bem?). Inclusive, esse livro, acho que ninguém quererá lê-lo justamente por causa desse pobre coitado irritante.
Mas enfim, nessa mesma obra há, ao menos no primeiro rascunho, coisa de uns 8 personagens. Sim, é bem enxuta, mas, caramba! Como assim eu não sei nada quase nada deles se eu os criei?
Esse foi o meu primeiro pensamento, mas acredito que há formas e formas de um mundo nascer. As minhas ideias nascem de ambientação ou acontecimentos. E refletir sobre isso me fez pensar que, pra mim, criar personagens deve ser algo como imaginar quem melhor atuaria em tal ambiente ou situação.
É bem semelhante à Criação: em que o homem surgiu no sexto dia, depois de tudo pronto. E ainda assim o miserável falhou. Ora, ora, já posso imaginar como não vai ser perfeito…
Esse romance mesmo, a ideia surgiu ao imaginar uma série de troca de olhares entre um casal estranho em vários dias diferentes. Não me lembro exatamente qual foi a fagulha disso, mas não importa.
Agora veja: era uma situação.
Não sei se a maioria começa assim ou começa pensando no ou nos personagens. Mas pelo que eu vejo, a maioria pelo menos parte para o personagem antes de adiantar muita coisa. Eu escrevi um rascunho inteiro da história que eu queria contar e só agora estou pensando nos personagens. Não tenho uma bendita ficha. Os pobrezinhos trocaram de nome tanto quanto eu troco de roupa.
Mas ao pensar nessa forma de criar personagens como quem seleciona o elenco, eu ganhei um gás para voltar ao meu livro e testar isso. É semelhante à técnica de colocar um personagem em uma situação para ver como ele reage e conhecê-lo melhor. Mas nesse caso de casting, é um processo anterior:
Eu tenho a ambientação/a situação. Agora, que tipo de criatura atuaria melhor nisso aqui? Qual a sua personalidade? Qual a sua história?
Quero testar isso com os meus personagens logo. Quem sabe eu não descubra quem são esses outros 7 e consiga enfim seguir com a escrita para o tão aguardado (ao menos por mim) segundo rascunho.
Parando para pensar, somente uma das minhas histórias nasceu ao primeiro vislumbrar o personagem na imaginação. Agora olha que curioso: essa história acabou se tornanando uma ideia para quadrinho, talvez especialmente pelo fato de como a ideia surgiu visual.
Se você chegou até aqui, adoraria saber a forma como os seus mundos nascem. Se você é um deus onisciente ou, assim como eu, insciente.
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